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sábado, 17 de abril de 2010

O julgamento da perda de valores

Após cinco dias de julgamento e expectativa da opinião pública, o casal Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá foi condenado na madrugada do dia 27 de março de 2010, acusados da morte de Isabella Nardoni, ocorrida em 29 de março de 2008. A sentença da prisão foi de 31 anos, um mês e 10 dias para Nardoni, e 26 anos, 8 meses para Jatobá. Do lado de fora de Fórum, após o resultado do júri, quase três minutos de comemoração se seguiram com explosões de fogos de artifícios, por moradores e pessoas que vieram de outras localidades da capital de São Paulo para assistir o veredito da condenação. A população já os havia julgado, as manifestações se deram na internet, televisão, revistas e até em conversas no âmbito público e privado. Uma pesquisa rápida no Google usando o nome casal Nardoni, nos remete a 1.120.000 resultados, a internet se transformou em tribunal e os internautas viraram jurados do caso da Isabella Nardoni.
Por que a população se moveu e comoveu diante do caso de Isabella Nardoni? Se a mídia relata a todo instante casos de violência e abuso e, outrora não, nos debatemos com tamanha manifestação pública? A explicação permeia o núcleo familiar. Não foram monstros que assassinaram Isabella, foi seu pai e madrasta. A estrutura do que se entende por família, e valores familiares foram colocados em xeque.
O sociólogo polonês Baumam, já elucidava no que muito nos instiga: a transformação do seio familiar. É na família, primeira instituição de socialização, que os indivíduos se relacionam e trocam experiências. Os filhos encontram o espaço que lhes garantam a sobrevivência, desenvolvimento, bem-estar e proteção integral através de aportes afetivos. É também o lócus da dinâmica social, estruturada pela identidade e valor. A aclamação da população diante da violência ocorrida se ampara na perspectiva do valor familiar.
Desde muito tempo deparamos com relatos de crimes que refletem a relação conflituosa entre os seres humanos, tais como o incesto, filhos que matam pai, pai que matam filhos. O mundo se transformou nas últimas décadas com o surgimento de novas tecnologias, avanços na educação, ciência e medicina. Mas essa mudança não foi o suficiente para diminuir as violências, pelo contrário, a fragilidade dos laços humanos se intensificou.
Novamente a perspicácia de Baumam nos ajuda a refletir. Estamos vivendo um dos mais agudos paradoxos da contemporaneidade: no ápice do processo civilizatório, dos avanços tecnológicos colocamos em evidência a fragilidade da vida, seus inúmeros perigos e riscos. Pretendo aqui, chamar atenção para a perda dos valores familiares. As famílias são construídas no cenário da pós–modernidade, cada vez mais sem identidade, sem parâmetros, sem limites, sem amor e afeto. Afinal, o que vale no mundo atual é a mais alta individualização, o ser livre, quebrando paradigmas, buscando a felicidade baseada num prazer inatingível, avançando os seus próprios limites, construindo relações sem regras, vivendo em plena liberdade.
Vivemos uma humanidade desumana, menosprezamos valores éticos, morais e afetivos. O que se pode esperar dessa sociedade? Não menos do que casos “Nardonis”. Que possamos então, através deste exemplo, não mais importante do que tantos já vivenciados, repensar e resgatar valores familiares necessários a preservação da vida e convivência humana. Neste caso também devemos nos perguntar, será que a sociedade está convicta de quais os valores que ela professa?

* Joice Duarte Batista. Socióloga, mestranda em sociologia da violência pelo Programa de Pós-graduação em Sociologia da Universidade Federal de Goiás (UFG).