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domingo, 19 de setembro de 2010

Narrativas de docentes sobre a violência

O jornal Diário da Manha (2008) traz narrativas dos acontecimentos de violência de alunos contra professores,no município de Goiânia- Go.

• Relato 1:
Estava em sala de aula, e um aluno do lado de fora esmurrava e chutava a parede com tanta força que era impossível dar aula. Chamei a coordenação e reclamei que o garoto não permitia que os outros alunos se concentrassem. Usei a expressão "parecia um cavalo". O estudante não gostou da forma como falei, fechou a cara na hora, mas não disse nada. Alguns dias depois, fomos fazer um passeio em outro colégio. Desci do ônibus, atrás dos outros professores. Notei que o aluno estava olhando para mim, quando me distrai, ele atirou uma pedra na minha cabeça. Ficou um hematoma enorme, tive que voltar para casa, tomar remédio, todo um desgaste. Não bastasse isso, dias depois, deixei minha bolsa na sala dos professores enquanto estava na sala de aula. Quando voltei, a bolsa não estava mais lá. Todo o dinheiro, celular, documentos, todos os meus pertences desapareceram. Não tem como dizer que não suspeito que seja o mesmo aluno.

• Relato 2:
O aluno estava em sala de aula ouvindo rádio. Disse a ele que não permitiria que ficasse escutando música na minha turma, estava atrapalhando os outros alunos e o convidei a sair. Ele relutou, mas saiu – chutando as cadeiras e a porta da sala. Avisei a ele que se continuasse assim não retornaria mais para a minha turma, ele não respondeu. Três dias depois, tive outra aula naquela classe. Ele achou que eu estava dando em cima da namorada, também aluna. O garoto tem passagem pela prisão e tudo. Ele apontou o dedo na minha direção, na frente da coordenadora do colégio, e disse que era para ter cuidado, porque poderia amanhecer com a boca cheia de formiga. Ocorreu uma discussão e, no momento, ficou por isso mesmo. Depois, fui até a delegacia e registrei boletim de ocorrência. A diretora tentou amenizar a situação e nos convidou para conversar. Até hoje, nenhuma medida repreensiva foi tomada.

• Relato 3:
Recusei-me a recolher um trabalho atrasado do aluno. Ele se virou e me chamou de palhaço na frente de toda a sala. Ele tinha problemas em casa, particulares, mas deixou que aquilo fosse para a turma, faltando com respeito comigo. Este não foi um incidente isolado. Outra vez, o aluno ameaçou me bater do lado de fora da escola. Ele recebeu uma nota baixa e não gostou do resultado. O que se pode fazer? A legislação protege os agressores, você fica refém dentro da sala de aula.

• Relato 4:
Um aluno começou a perturbar a turma, conversando com os colegas. Chamei a atenção dele de forma educada e ele me respondeu com rispidez. O aluno me mandou... Não consigo repetir as palavras. E ele era praticamente uma criança... Pedi para que se retirasse, mas ele disse que não iria sair. A coordenadora estava no corredor e precisou intervir, convidando-o a sair. Confesso que senti um misto de frustração e derrota. Estou ali trabalhando. As condições não são as melhores e você ainda é agredido pelo aluno. Isso é degradante, me sinto humilhado!

Diante destes relatos o primeiro passo para a busca do enfrentamento da violência escolar, em especial da violência de alunos contra professores, perpassa o caminho do reconhecimento e entendimento do que são comportamentos violentos, já elucidados anteriormente. Outrora deve se buscar as causas do fenômeno, e as práticas docentes.

Relação entre relatos e práticas dos professores.


Os relatos dos professores quanto a violência de seus alunos se divide em categorias: 1- violência física 2- violência simbólica 3- violência verbal.
A violência física, narrada pelo episódio 1 – reflete a agressão física – o aluno atirou uma pedra na professora e depois lhe roubou a bolsa. A violência verbal está em todos os relatos de episódios, boca cheia de formigas, palhaço, xingamentos e palavrões.
A violência simbólica se manifesta por meio do desrespeito (ameaças e insultos). Em relação ao desrespeito para com o professor, aparecem discursos que apontam atitudes de rebeldia, insultos e ameaças, isto é, promessas de provocar danos ou de violar a integridade física ou moral.
A análise dos relatos dos professores, apontam para episódios que envolvem somente os alunos no processo de violência. Enquanto que os professores e ou autoridades escolares dificilmente são postos como agentes da violência. Assim os dados corroboram para a afirmação de que a noção de violência escolar envolve, como primeiro agente, o aluno. Os professores dos episódios narrados não percebem as ações repressivas e comentários reprovadores que levam a violência de seus alunos, pois não se vêem como protagonistas da violência. Porém quando o professor do episódio número 1 chama seu aluno de cavalo, não está praticando a violência verbal, humilhando-o na frente da turma?
Observa-se a partir dos relatos, que há uma dificuldade de comparação entre relatos e práticas. Os professores conseguem relatar a violência de seus alunos, mas não conseguem se identificar como agentes nesse processo. Diante disso verificamos que, a violência praticada pelos alunos contra seus professores não é gratuita, e sim uma reação a própria violência vivenciada, seja por meio da humilhação e desrespeito de seus professores, caracterizando violência simbólica e verbal, seja em reação a violência estrutural, vivenciada no bairro, na família, na sociedade.
Podemos levantar alguns elementos que corroboram para a interação violenta entre os pares: conflito de gerações, a desconsideração da cultura juvenil, a falta de abertura para o diálogo, a baixa expectativa dos professores para com o futuro de seus alunos e o questionamento da autoridade.
As interações entre alunos e professores relatados nos episódios constituem – se pano de fundo para a ocorrência de atos violentos. Neste contexto, o papel do professor pode ser visto em duas vertentes: A primeira se pauta no modo de relacionamento que se estabelece, de certa maneira, prevalece entre alunos e professores o relacionamento que é essencialmente conflituoso, uma vez que, os alunos questionam a autoridade do docente e assumem um comportamento de colisão em relação ao mesmo. E de outra maneira, os professores relutam em valorizar a cultura juvenil, em compreender a geração jovem e o mundo que permeia os valores culturais e simbólicos, assumem outrora, a postura de poder que tende a marginalizar os alunos.
O enfrentamento de práticas violentas entre alunos e professores começa no desenvolvimento de laços de amizade, confiança, na construção do diálogo e na compreensão das relações sociais, a fim de difundirmos uma cultura de paz no ambiente escolar.